terça-feira, 7 de maio de 2013

A névoa brotava do lago que parecia um caldeirão.



Os 7º C indicados pelo termômetro não foram obstáculo para os frequentadores do gelado Parque Barigui (pelo menos nesta manhã).
Cheguei ao parque e fui cumprindo minha missão do dia, vencendo um a um os catorze tirinhos de mil metros, com intervalos de 60 segundos.
Mesmo nesta fase de longas distâncias, é preciso manter um pouco de dignidade no ritmo das passadas, então, a solução é atirar-se nos intervalados.
Suportar o vento gelado no rosto foi quase tão sofrido quanto o trabalho das pernas para manter o ritmo pretendido. O ar frio que entrava pelos pulmões me enrouqueceu a voz.
Lá pelas 7h30, o sol já brilhava, espalhando a neblina e me permitindo desdobrar uma das mangas da blusa de lã.
Findado mais um bom treino com nível de esforço e objetivo alcançados, segui para casa, programando uma breve reconstituição e, então, a sequência do dia de trabalho. No caminho, uma visão me motivou um largo sorriso: minha linda, elegantemente vestida com sua camiseta Nike pink, seguia sorridente no sentido contrário, em direção ao parque, para iniciar seu treino do dia.
É a vida corrida aquecendo mais uma manhã que começa cinza e segue lindamente ensolarada.
Beijos, minha linda.

terça-feira, 12 de março de 2013

Construindo uma campeã




Mesmo com meu guarda-chuva velho de guerra, não consegui abrigo da tempestade que se precipitava sobre a capital naquele domingo, então, caminhei até um ponto de ônibus próximo. Ele ficava bem no final de uma das grandes subidas da Cândido Hartmann. Mal cheguei ao ponto e já avistei, em meio à nuvem de água, uma garota correndo forte, toda ensopada pela chuva e determinada a concluir seu treino, alheia às condições climáticas. Fui até ela, entreguei gel e água e recebi seu costumeiro largo sorriso de brinde – uma linda! Ela fez sua hidratação e reposição e seguiu seu percurso, com passadas firmes, pois ainda restavam 17 km para finalizar o longuinho de 25 km, previsto para o dia.





Para o período de base deste 2013, planejamos dois meses de treinos privilegiando os trabalhos em aclive, declive e areia, rodagens em estradas de terra batida, musculação e, é claro, algumas sessões de intervalados, para manter a animação, afinal, velocidade é sempre importante.









Trabalhamos com treinos de corrida em quatro dias da semana e com dois dias de treinos de musculação. Apesar de serem apenas quatro corridas semanais neste período, procuramos mesclá-las bem, com treinos variados de força, resistência e velocidade. No sábado, normalmente, havia uma exaustiva sessão de tiros e, no domingo, uma rodagem de 20 a 25 km.





A ideia de a Vivi participar da K21 Curitiba foi concretizada a 20 dias da prova, pois a competição se encaixava exatamente no final do ciclo de base: uma meia maratona em percurso de trilhas, montanhas e muito verde, diferente do que será usado nos treinos seguintes, para a Maratona de Porto Alegre.
Apesar do seu receio de não ter treinado adequadamente para a disputa, observamos que, durante a base, foram realizados bons treinos de cross country, em percursos com subidas e até um último treino de intervalados em subidas, sobre a grama, em um dos lados do bosque do Parque Barigui.



Quando fui até o km 20 do percurso da K21 Curitiba, não precisei esperar muito e surgiu a primeira colocada da prova, a minha linda, Viviane Baggio, sorridente e com as mesmas passadas resolutas dos treinos suados e molhados. Entreguei a ela um gel, um copo de água gelada e um largo sorriso — já vislumbrava sua vitória. Ela estava sozinha na liderança e pronta para correr outros 21 km se necessário fosse.
A partir dali, tive a certeza de que cruzaria a linha de chegada em primeiro lugar, coroando todo o trabalho e a dedicação de uma vida no esporte. Lembrei-me também daquele outro domingo, no qual ela treinou firme, indiferente à chuva e ao treino intervalado do dia anterior. As primeiras passadas de uma vitória são dadas ainda em nossa mente determinada a fazer o melhor.





O período de base foi concluído com extremo sucesso, agora, rumamos às novas passadas.
Sou muito grato por poder participar das suas vitórias, meu amor.
Beijos, minha linda.


segunda-feira, 4 de março de 2013

Um drinque no Morro da Palha




Em 2010, a paixão da minha vida se inscreveu para a K42 Bombinhas Adventure Marathon. No desejo de experimentar novas aventuras, o MP se embrenhou nas corridas de montanha. Participou de algumas etapas do Circuito Paranaense de Corridas de Montanha organizado pela Naventura (esteve no pódio em todas elas, novidade, rs) e seguiu para “a maratona mais bela e mais desafiadora do país”. Não fez a prova que gostaria, provavelmente, o período de treino foi curto, ele não se diverte correndo em ritmos mais lentos, como exige esse tipo de prova, talvez não fosse o “seu” dia (está aí a beleza das maratonas, sua não previsibilidade). Enfim, a K42 ficou “entalada” na sua garganta e a vontade de fazê-la novamente, bem treinado, se mantém desde então. E desde então também, ele vem tentando me seduzir para a K42.



Até pouco tempo atrás, as provas de montanha não me entusiasmavam. Vários amigos já foram conquistados por essa modalidade de corrida e o motivo mais recorrente para isso é “cansei do asfalto”. Eu justifico meu percurso diferente afirmando “ah, mas eu ainda gosto tanto do asfalto...”.
O MP, que é grande fã da variação de terreno nos treinos e adora dar uma fugidinha do asfalto sempre que possível, me apresentou lindos percursos de estrada de chão. Gostei muito, fizemos ótimos treinos e algumas provas de cross country. Sem dúvida, belas paisagens deixam qualquer treino mais interessante.



Neste ano, para apimentar um pouco mais minha (nossa) vida, ele me surpreendeu com um singelo presente. Vinte dias antes da K21 Half Adventure Marathon, me avisou:
— Vamos fechar seu período de treino de base com chave de ouro, fiz sua inscrição para a K21.
— O quê?!!! — perguntei. — Eu apenas afirmei que deveria ser uma bela prova; as imagens divulgadas são sedutoras...
— Então, é sem compromisso. Você precisa fazer uma meia maratona para concluir este ciclo de treino. Você vai se divertir. Mas claro, prova é prova... — me provocou sutilmente, como de costume.
Recuperada do susto, respondi nervosinha:
— Ok, mas não vou correr forte. Meu alvo é a Maratona de Porto Alegre e eu não quero me machucar em uma prova para a qual não treinei adequadamente. Essa não é qualquer provinha.
Como sempre, meu amor concordou, mas os planos maquiavélicos continuavam fervilhando na sua mente predadora de campeão.



Tentei não me informar muito sobre a corrida (ao menos, até onde minha curiosidade permitiu), pois nenhuma palavra que eu ouvia ou lia sobre ela, mesmo sem querer, me trazia notícias tranquilizadoras. Em corrida de montanha, “quanto pior, melhor”, esse é o lema, e os corredores se deliciam com tal fantasminha.



E assim, sem compromisso e sem expectativas (minha ingênua pessoa pensava dividir essa ideia com meu incentivador-mor), o MP e eu seguimos para o Parque Ecológico Ouro Fino, em Campo Largo. Recuperando-se de uma lesão, desta vez, ele ficou nos bastidores, dando o melhor apoio do mundo, como sempre, fotografando e filmando os amigos corredores e se divertindo muito seja como for, seu padrão de comportamento.





Após abraços, beijos e festejos no encontro com os amigos, a tensão pré-largada foi o caminho natural e “pernas pra que te quero”, no momento, o antídoto mais apropriado. Um pequeno trecho de asfalto deu início à prova, depois dele a primeira trilha e dali em diante o entretenimento ininterrupto e de primeira qualidade só acabou na linha de chegada.
Trilha gramada, subida, descida, lama, estrada de chão, subida, subida, trilha de terra, subida, lama, descida, trilha com erosões e cascalhos, subida, subida, descida, subida, vista maravilhosa, trilha, subida, descida, córrego para refrescar as pernas e encher de água o tênis já cheio de lama, belo carreiro no meio da mata serrada, subida que parece não ter fim, trilhas, outras trilhas e mais trilhas, descida, subida, árvores que formam um túnel cercando o caminho, subida, descida, descida, trilha, carreira, estrada de chão, outra subida para manter a consistência, descida, um trecho de asfalto, mais uma bela subidinha, afinal, as pernas dos corredores precisam de mais esse incentivo e, finalmente, a linha de chegada. Essa foi a sinfonia oferecida aos bravos corredores pela K21 Half Adventure Marathon — Curitiba.



A natureza já estava ali, apenas esperando seus admiradores, mas, como bem se sabe, o sucesso de um evento esportivo depende de uma organização eficiente e nisso também a K21 foi impecável. Apoio, hidratação, sinalização do percurso, animação, respeito pelos corredores: tudo na medida certa!



















A paisagem lindíssima instigava a vontade de parar e contemplar a natureza, mas, para mim, não era possível, eu tinha pressa. O amor da minha vida estava me esperando e eu precisava retribuir o presente que recebi vinte dias antes.
Fui conquistando no percurso o regalo que lhe daria, minhas pernas seguiram fortes, o descompromisso me ajudou no início e tudo foi mais que perfeito. Minha estreia em corridas de montanha foi brindada com a vitória entre as mulheres (e minhas concorrentes, diga-se de passagem, eram feras!!). Poderia ser melhor?!



Não vou afirmar que a prova foi fácil, não mesmo. Mas também não foi a mais difícil que já fiz. A mais bela, sim, não há dúvidas!! Corri com alegria, com sorriso no rosto, porque o percurso merecia e porque meu maior incentivo em cada passada estava na minha mente e no meu coração, ouvindo aquela mesma sinfonia.



E, assim, os planos do MP mais uma vez foram bem-sucedidos. A K42 Bombinhas, agora, está bem mais pertinho de mim.
Beijos, meu amor.

Créditos das imagens: MP, exceto as fotos 2 (Naventura), 8 (Wladimir Togumi) e 19 (Nicholas Egoshi)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Agora endoidou de vez: ultramaratonista!



“Saiu nova parcial agorinha. Você está com 79,3 quilômetros e o segundo colocado com 75,4 quilômetros. Quer comer alguma coisa? Quer sopa, água, BCAA? Ah, meu amor, eu não sei se fico feliz por você ou preocupada com todo esse esforço” – disse minha linda, lá pelas 7h da matina, um tantinho depois do nascer do sol, às margens do lago do Recanto Marista.
Pensando bem, posso afirmar que a ideia de correr uma ultramaratona nasceu da falta de ter o que fazer. Neste ano de 2012, não participei de maratonas, somente de corridas de menor distância e também fiz treinos de velocidade, mas busquei um pouco de descanso das muitas provas dos anos anteriores. Confesso que estava desanimado com as competições, não conseguia reeditar os desempenhos anteriores e meus tempos estavam altos.
Numa dessas noites agradáveis do início de novembro, minha linda e eu navegávamos em blogs de moda, culinária, futebol e, claro, de corrida. Entre uma “zapeada” e outra, vimos o anúncio das ultramaratonas de 6 e 12 horas que aconteceriam em Almirante Tamandaré, no mês seguinte. Sem pensar muito, eu disse “opa, vou participar dessa corrida e quero fazer as 12 horas”. Meio descrente e acreditando se tratar de uma brincadeira, a Vivi fez minha inscrição e nossa equipe foi batizada de MP & Vivi. Uma brincadeira gostosa, da qual rimos bastante.


Já no dia seguinte, saí bem cedo para treinar, de caso pensado, motivado a participar de uma competição totalmente nova, desafiadora e que aconteceria em apenas quatro semanas. Pesquisando sobre ultramaratonas, descobri que o tempo mínimo necessário de preparação para esse tipo de prova são doze meses. Porém, com o corpo já calejado e amadurecido pelas décadas de corridas realizadas, achei que a experiência poderia dar certo. Paguei o boleto da inscrição no mesmo dia e, pronto, estava cadastrado para minha primeira ultramaratona.
Quando a Vivi começou a me ver saindo cedo para treinar – coisa rara nos últimos tempos, pois corria um dia sim, um dia não, outro também não – percebeu que eu realmente estava levando a sério aquela brincadeira. Contei, então, que já havia pago a inscrição e ela quase me bateu, hehehe. Claro, preocupada com minha saúde, afinal, eu estava correndo cerca de 60 km por semana e, em um mês, queria me preparar para uma ultra!


Fiz o que pude, sem saber bem o que fazer. Passei a ir para o trabalho correndo e voltar para casa por novos caminhos. Treinava entre 20 e 30 quilômetros por dia. Rodei mais de 100 quilômetros semanais nesse período e complementei o treino com séries de fortalecimento muscular (muita repetição e pouca carga) na Fit Premium Batel, que me apoia nos treinos de musculação.
Passado o susto, minha Vivi estava confiante, sempre dizia que eu iria surpreender, que teria um ótimo resultado. Para me incentivar mais ainda, me presenteou com um belo par de tênis, especial para a ocasião. Isso tudo me dava ânimo para treinar e confiança de que poderia alcançar meu objetivo. Ao menos, terminaria aquela loucura impensável: correr por 12 horas.
Bem, não tinha mais volta, a inscrição estava paga e eu estava razoavelmente treinado. Na relação de inscritos, vi os nomes do Raphael Bonatto e do Daniel Meyer, dois feras. Portanto, já sabia que a competição seria acirrada e que teria de fazer algo diferente para acompanhar corredores fortes como eles.


A Vivi cuidou dos preparativos alimentares e suplementares. Eu, para variar, fazia corpo mole e só queria descansar, com a desculpa de que precisava guardar energia, hahaha. O Carlão, nosso sobrinho carinhoso, emprestou uma barraca para guardarmos os apetrechos durante a prova. Minha sogra querida, a dona Carmem, nos forneceu as cadeiras de praia, que se tornaram um marco na competição, pois simbolizaram o momento de recuperação. Ah, essas cadeiras...


E assim chegou o grande dia, a largada da competição estava agendada para as 21h de sábado e o encerramento para as 9h de domingo.
Durante todo o sábado, choveu muitíssimo em Curitiba, houve um temporal com ventos fortes e trovoadas. A previsão do tempo não era boa, deveria chover por toda a noite de sábado e na manhã de domingo também. Nada animador pensar em correr por 12 horas debaixo de chuva! Felizmente, já na saída de casa, a chuva havia dado uma trégua e não choveu mais nas horas seguintes.
Como é tradição, eu não tinha anotado as coordenadas para chegar ao local da prova. Tive de parar para pedir informação e rolou certa insegurança com o trajeto. Tudo normal em dia de prova, hehehe.
Enfim, chegamos ao Recanto Marista, um lugar muito bonito, com um lago e muitas árvores. Porém, de pronto, fomos avisados de que a chuva havia danificado o esquema de iluminação. Para não corrermos na escuridão total, o organizador da prova, Edgar, estava tentando de tudo e, por fim, faróis de carros ajudaram na iluminação ao longo do percurso. Em razão dessa nova estratégia, a largada foi atrasada por 55 minutos. Eu aproveitei esse tempo para descansar as pernas antes do início da correria.


E então, às 21h55, estavam os atletas todos prontos e alinhados. Não éramos muitos, apenas uns 30 ultramalucos. Eu estava mais atrás, ao lado do Marcelo Moraes, rindo nervosamente, pois não fazia ideia do que me esperava. Tinha somente uma certeza, pelo menos por 60 quilômetros eu aguentaria. Depois disso, somente Deus sabia o que iria acontecer. Afinal, não estava treinado para aquilo tudo.



No início e em grande parte da prova, era preciso correr olhando para o chão, pois a pista – 1.300 m de extensão em torno do lago – era uma estradinha de terra batida, com pedras soltas, grama, alguns buracos, algumas poças de água e um tantinho de lama. E isso tudo muito mal iluminado.
Eu não tinha uma estratégia definida. Já na largada, o Daniel saiu feito louco, correndo a cerca de 4’/km, quase ritmo de prova de dez quilômetros. O Marcelo foi atrás e eu pensei esses caras estão malucos, mas vou tentar acompanhá-los.
Os atletas mais fortes na categoria individual eram o Bonatto e o Daniel. O Bonatto definiu seu ritmo constante desde o início e eu sabia que ele é muito resistente, ou seja, não poderia correr ao lado dele, pois não teria a mesma resistência. O Daniel, por sua vez, estava uns trezentos metros à frente, correndo forte.


Então, comecei a traçar minha estratégia ali mesmo, no meio da prova. Pois é, não tinha muito o que fazer naquela noite inteirinha, além de correr e correr, hehehe. Defini que precisava jogar com as cartas que tinha na mão. Eu não era tão resistente como o Bonatto e o Daniel para correr por tanto tempo, assim, minha única saída era manter um ritmo mais forte, para abrir vantagem desde o início e fazer minhas paradas de descanso e suplementação. E foi dessa forma que agi, consegui dar uma volta sobre o Daniel apenas no quilômetro 21. Até lá, estava fazendo em média 4’10”/km e no quilômetro 29 fiz minha primeira parada.


Minha linda, que estava sempre atenta e não pregou os olhos um minuto sequer, veio em meu socorro, com água, Endurox e gelo, muito gelo. Ela passou gelo na minha panturrilha e colocou bolsas de gelo nos meus joelhos. O quadro das parciais indicava que eu estava com uma vantagem de cinco quilômetros em relação aos demais competidores. Então, deitei, comi purê de batata, abusei do descanso e lá fui eu para outras voltas.


A partir desse ponto, comecei a planejar paradas a cada 10 voltas, ou seja, a cada treze quilômetros. Havia projetado também correr num ritmo de 4’30”/km e estava conseguindo mantê-lo. Assim segui, correndo na escuridão, me automotivando com paradas estratégicas e mantendo a vantagem.
Não sabia por quanto tempo aguentaria, mas procurava não pensar. Meu corpo estava no piloto automático, era como um pêndulo, aproveitando a força da gravidade e gastando o mínimo de energia possível, somente se deslocando para frente, volta a volta, em meio à escuridão A cada seis ou sete minutos, recebia o apoio animado da minha linda, que esteve sempre cuidando de mim. Após 60 quilômetros, a Vivi correu várias voltas comigo. Foi uma delícia, eram cerca de quatro horas da madrugada, uma noite agradável e nós ali, correndo em torno de um belo lago e conversando. Quando, em outra ocasião qualquer, faríamos aquilo?



Passadas mais algumas horas e já corridos uns 75 quilômetros, não conseguia mais fazer paradas a cada 10 voltas. Ampliei o descanso e parei a cada cinco voltas, pois a recuperação estava mais difícil. Na primeira volta após a parada, eu estava todo travado e manquitolava um trotinho modesto por uns 300 metros até embalar novamente no ritmo. Quando estava na quinta volta, já ansiava pela cadeira de descanso e por receber amavelmente gelo na panturrilha.


Na parada seguinte, a Vivi me informou sobre minha colocação. Eu estava com 79,3 quilômetros e o Bonatto vinha na cola, com 74,5 quilômetros. Essa diferença me dava certa folguinha para descansar e seguir na minha estratégia de manter a diferença. A Vivi se desesperava ao ver meu estado deplorável a cada parada. Eu me jogava em frangalhos naquela cadeira de praia e, depois dos seus cuidados, saía quase novo em folha para mais um trecho. Sem saber se comemorava minha vantagem ou se entristecia por meu sofrimento, uma certeza ela possuía: eu estava determinado, pois sempre gostei de brigar pela vitória até o fim.


A partir daquele momento, fui “na raça”. Comentei com a Vivi que faltavam apenas dez tirinhos de cinco quilômetros para terminar a prova. Calculei que, pela velocidade que o Bonatto vinha mantendo e considerando que não fazia paradas, ele deveria concluir a prova com pouco menos de 120 quilômetros. Então, correndo mais uns 50 quilômetros a partir daquele momento, eu conseguiria vencer a competição. Que loucura! Já eram quase cinco horas da manhã, o dia estava amanhecendo, eu estava um caco, restava apenas “a capa da gaita”, já havia corrido 79 quilômetros e ainda planejava correr mais 50?! Era insanidade total, pensava eu, enquanto fechava mais uma volta.


Os vizinhos de barraca no modesto acampamento que firmamos foram cruciais para o desafio. A Vivi e eu, praticamente, assaltamos o isopor do Marcelo e do Ivan, que estavam correndo a prova de 12 horas em dupla. O Marcelo me ajudou muito quando me ofereceu um copo com sopa quente e revigorante, que me deu novo ânimo, e também um comprimido para dor, que me manteve firme na prova. Gestos de amizade e solidariedade como esses foram importantíssimos para mim.


Outro vizinho de acomodações foi o Biel Carpenter, que competiu na prova de 6 horas. Novo na corrida, o Biel ainda não havia concluído uma maratona e, já na sua primeira ultra-aventura, correu mais de 60 quilômetros. No seu apoio, estava o fiel amigo Mouse, uma figura impagável, que me ofereceu uma cuia de chimarrão em uma das minhas paradas, hehehe. Que beleza! O Mouse veio a Curitiba especialmente para acompanhar o Biel e também me incentivou muito a continuar lutando.


Ou seja, a Vivi estava muito bem acompanhada e não teve sono em nenhum momento, batendo altos papos com a turma animada que acampou no Recanto Marista.
Assim, o tempo foi passando, os quilômetros foram alcançados e, inexplicavelmente, eu continuava correndo e correndo, mantendo a diferença de três ou quatro voltas para o Bonatto. E nesse ritmo, foi rompida a barreira dos 100 quilômetros, faltando duas horas para o final da prova. Mas eu não tinha descanso, pois meu adversário vinha forte e determinado, então, seguia passada a passada, com todos os cuidados, preocupações e incentivos da minha linda Vivi.


Enfim, onze horas e cinquenta e oito minutos após o início da prova, cruzei a linha de chegada em grande estilo, de mãos dadas com o amor da minha vida. Uhu! Vitória! Um sonho que parecia impensável se realizou. Sem compromisso, decidi experimentar essa doideira das ultramaratonas e consegui vencer a competição, com mais de 118 quilômetros corridos. Ganhei muito mais do que um troféu, conquistei novas amizades, vivi ótimos momentos naquela noite, madrugada e manhã e festejei muito todas essas conquistas.



Com muita satisfação por ter corrido ao lado desses grandes atletas, parabenizo o Rafael Bonatto, um guerreiro que parou apenas por 6 minutos em toda a prova, e o Daniel Meyer, corredor forte e veloz (quase um trator, hehehe). Parabenizo também todos os ultramaratonistas que participaram desta prova-desafio. Certamente, foi uma experiência memorável para todos nós.


Agradeço a minha linda, minha musa inspiradora, meu apoio constante, sem sombra de dúvidas, se ela não estivesse comigo, nada teria acontecido. Te amo!


No primeiro momento após a prova, afirmei que jamais faria algo parecido novamente. Ninguém merece correr tanto, com sono, na escuridão... Que doideira! Mas agora, com a cabeça fria e parcialmente recuperado, começo a considerar as possíveis novas aventuras... Que venham novas ultras!
Beijos, minha linda.

P.S.: agradecemos a Marcelo Moraes, Raphael Bonatto e Marcos Dallacosta (Mouse) pelo "empréstimo" de algumas das imagens usadas neste post.